Teorias Maternas

O parto que não sonhei

Antes de engravidar pela primeira vez, estava claro para mim que parto normal era algo tão sofrido que minha opção, como a da maioria das minhas amigas, seria pela cesariana. Na minha cabeça, aquele procedimento quase indolor, anestesiado e sem contrações, reduziria meu sofrimento e tornaria aquele momento menos poético e mais realista. Um cenário que parecia mais comigo. Afinal, nunca idealizei gravidez, nunca acreditei que a dor do parto me tornaria mais mãe e não tinha a pretensão de parecer uma mulher forte.
Eu tinha tanto desapego à magia do parto normal ou humanizado ou qualquer coisa do gênero, que escolhi uma médica conhecida pelo alto número de cesáreas realizadas e, não por acaso,  ganhadora de um prêmio do hospital com o sugestivo nome de “bisturi de ouro”. Achei aquilo sensacional! Imaginei que ela deveria ser uma fera na obstetrícia. Lá fui eu…
Faltavam ainda alguns dias para completar 39 semanas e  fui para a minha última consulta agendada do pré-natal. Trabalhei pela manhã, busquei minha irmã no aeroporto e segui para o consultório. Eu não sentia absolutamente nenhum sinal de que o parto estava próximo. Esperava minha família, especialmente minha mãe, chegar a Brasília nos dias seguintes para me acompanhar na última semana de gravidez. Na consulta, entretanto, a médica olhou para mim e disse: vai ser hoje!
Como? Ainda faltava uma semana para a data prevista. Eu não sentia contrações e nenhum indicativo de que era o momento certo para o bebê, ou que Maria Eduarda estivesse disposta a nascer. Eu tinha imaginado uma cesariana, mas planejava que fosse quando o bebê desse sinais… A médica, entretanto,  justificou a decisão afirmando que estava com o centro cirúrgico à disposição naquele dia, que era sexta-feira e o risco de não achar vaga em hospitais particulares durante o fim de semana em Brasília era imenso. Naquele momento, assustada e pega de surpresa, eu confesso que já não conseguia raciocinar ou falar muito. Foi uma das poucas vezes (talvez a única) na minha vida em que deixei que decidissem por mim.
Seguindo a programação da médica, eu estava pronta para a cesárea às 18h30. Meia hora depois, Maria Eduarda nasceu linda e com um choro forte. No entanto, não tive muito tempo para segurá-la. Uma hemorragia pós-parto fez o centro cirúrgico se movimentar. Lembro-me de muitas pessoas falando alto para não deixar “a mãe apagar” e a partir daí minhas lembranças são um pouco confusas. Lembro-me de pedirem para meu marido sair atrás da bebê, de cheirar éter  e de ouvir a médica falando que “o útero não estava voltando”…Eu sentia uma vontade enorme de fechar os olhos e dormir.
Demorei a perceber a gravidade do que se passava. Já na sala de recuperação, meu marido era o único autorizado a permanecer. As enfermeiras trocavam o lençol encharcado a cada 15 minutos e eu me sentia fraca demais para segurar minha pequena. Lembro-me de ter rezado todas as orações que havia aprendido na vida. Naquele momento, eu só pensava em como Deus poderia me dar uma filha e não me deixar criá-la… Foi a primeira vez que senti um medo maior do que a minha certeza de que sou capaz de resolver um problema. Foi a primeira vez que senti um desejo enorme de viver por alguém.
No dia seguinte eu estava melhor. Ainda sentia como se fosse desmaiar de repente e não conseguia segurar minha filha, que tinha quase quatro quilos. Mas já não achava que iria morrer e estava animada com a vida. Passei uma semana sem forças para caminhar, mas fui recuperando as energias. Um mês depois, sentia a sensação de ser uma sobrevivente.
Convivi com o medo do parto e da morte por mais de três anos. Tinha pesadelos de que morreria sem criar Maria Eduarda e, às vezes, chorava olhando ela dormir. Quanto mais lia sobre hemorragia pós-parto, mais medo eu ficava de ter outro filho. Fiz uma dezena de exames para tentar descobrir a causa da hemorragia, mas absolutamente todos deram normais. Os médicos concluíram então que pode ter sido um conjunto de fatores, como a precipitação do parto, a cirurgia sem contrações naturais e a ausência de exames pré-operatórios que mostrassem se eu estava com anemia, por exemplo. Enfim, me convenci de que poderia engravidar novamente se tomasse todos os cuidados prévios.
Comecei a programação para um segundo filho procurando uma médica doce, humana e com um currículo repleto de partos normais. Eu adorava quando desmarcavam minha consulta porque ela estava com uma paciente há horas em trabalho de parto! Ficava aliviada e animada, certa de que não seria obrigada a parir antes do tempo mais uma vez. Naquele momento, eu estava decidida a ter o segundo filho de parto normal. Era a melhor forma de evitar que as coisas se repetissem. E todo pré-natal foi feito pensando nisso e em todas as consultas eu lembrava para a médica que queria parto normal!
 Na minha última consulta antes das 40 semanas completas, estávamos prontas para aguardar contrações durante os próximos dias. Mas, já em casa, percebemos que o bebê não mexia há algumas horas. Ligamos para a médica, que marcou a cesariana para as horas seguintes. Cesárea de novo? Resisti. Afinal, planejei um parto normal e não queria passar por todo aquele pesadelo mais uma vez. A médica explicou que era necessário e que a falta de movimento do bebê poderia indicar alguma dificuldade para ele dentro do útero. Confiando nela, seguimos para a internação.
Luis Felipe nasceu enorme e lindo. Mas realmente estava com duas voltas de cordão no pescoço e já sentia dificuldade para respirar. Não estava rosado e praticamente não chorou. Precisou receber um pouco de oxigênio por alguns minutos até voltar ao normal. Recuperado, segurei-o forte, chorei e percebi que ele fora salvo pela cesariana que eu tanto rejeitei…
Hoje, quando penso nos partos, minha única certeza é que não deveríamos imaginar cenários ou procurar médicos que claramente nos induzam a preferir um ou outro tipo. Acho poético quando mulheres defendem partos em casa de acordo com os sonhos de maternidade e não deixo de achar corajosas as que se aventuram longe dos hospitais. Mas não me arrisco a opinar sobre as escolhas de cada mãe nesse processo. Minha experiência me convenceu de que mais importante do que o planejamento idealizado que fazemos desse momento, um parto bem sucedido é aquele em que terminamos vivas e com um filho saudável nos braços.

Até a próxima!

 Izabelle Torres ([email protected])  

É jornalista, mãe da Duda, de 6 anos e do Lipe, de 1 ano. É coordenadora do Maadu e escreve às sextas na coluna Teorias Maternas.                                            

 

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2 respostas em “O parto que não sonhei

  1. Heloisa Ramos disse:

    Sensacional! Eu também escolhi uma médica que só fazia cesarianas e vou mudar urgentemente! Obrigada por compartilhar história tão cheia de detalhes e sentimentos. Ter o segundo filho foi um belo sinal de coragem.

  2. Amélia Lyra disse:

    Adorei! Parabéns pela história tão linda e verdadeira, parabéns por sua história!

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