Saúde

Depressão paterna afeta o desenvolvimento cognitivo da criança

Por Maíra Souza

“Imagine se, de um dia para o outro, a sua rotina não incluir mais as coisas que lhe dão prazer. O vinho, a leitura de um livro, o filme que lançou, o futebol com os amigos, a conversa na hora do jantar sobre o seu dia…Tudo passa a ser trocado por noites mal dormidas, cobranças da companheira e aquela dezena de necessidades de um bebê, que impedem a vida de seguir como antes. Foi um choque difícil de me adaptar. De repente, eu estava irritado, triste e minha única vontade era ficar deitado na cama”. O relato desse pai ouvido pelo Maadu mostra a dificuldade de muitos homens para enfrentar as mudanças na vida causadas pela chegada de um filho. Um sentimento que desencadeia a depressão pós-parto paterna: condição clínica ainda negligenciada pela literatura e desconhecida de muitas pessoas que passam pelo problema.

A doença é vilã nas relações conjugais e atrapalha o desenvolvimento de vínculos entre o pai e o bebê. Por isso, deveria receber atenção maior, tanto de especialistas como da própria família, que tende a não observar os sentimentos paternos devido ao protagonismo do bebê na rotina familiar. Normalmente, a doença apresenta sintomas similares aos da depressão comum como: alterações de humor; perda do interesse em atividades diárias; falta  de apetite; distúrbios do sono; agitação ou retardo psicomotor; irritabilidade; rigidez afetiva e excesso de autocrítica.

“A principal diferença entre a depressão geral e a depressão pós-parto do pai é que a depressão pós-parto tem início após as quatro primeiras semanas de vida do bebê e vai até o quarto mês. Antes disso, a tristeza é considerada dificuldade de adaptação à nova rotina e, depois, passa a ser depressão crônica.  Ela será definida pela persistência dos sintomas no período mínimo de duas semanas, sendo obrigatória a presença de humor depressivo ou anedonia (incapacidade de sentir prazer)”, explica a psicóloga Sabrina Koch, que publicou um estudo sobre as distorções cognitivas e o conflito conjugal na depressão pós-parto paterna.

Segundo a especialista, estima-se que entre 3% e 10% dos homens sofram com a DPP-paterna, embora os dados sobre a doença ainda sejam escassos porque poucos estudos foram realizados até hoje. Uma das pesquisas utilizadas por estudiosos do assunto foi realizada no Brasil, na cidade de Pelotas, e publicado na Revista de Saúde Pública. A pesquisa avaliou 386 casais entre a 6a e a 12a semana após o parto e registrou a ocorrência de depressão pós-parto paterna em 11,9% dos pais.

A doença causou efeitos na relação familiar e também no desenvolvimento infantil.  “Os efeitos da DPP-Paterna no desenvolvimento infantil também assumem características próprias, interferindo na capacidade de fornecer parentalidade sensível. Há ainda o aumento de risco de causar problemas comportamentais e emocionais em crianças entre 3 e 5 anos de idade. Além disso, influencia na interação pai-bebê e pode causar o surgimento de alterações cognitivas em filhos de pais deprimidos”, alerta a psicóloga Sabrina Koch.

Diante de efeitos tão graves para toda família, é preciso atenção à saúde emocional do pai. Os sintomas da depressão podem aparecer tanto nos que foram recentemente submetidos à parentalidade, como os que demonstram dificuldades de adaptação à vida com um bebê até o quarto mês após o parto. Depois desse tempo, a depressão se torna crônica. Em ambos os casos, a maioria dos homens estudados atribuiu a doença às mudanças repentinas de vida e ao aumento da pressão pela responsabilidade na conjuntura familiar.

Segundo Sabrina Koch, diante dos primeiros sinais da doença, é importante que a família procure ajuda rapidamente. Afinal, quando negligenciada, a depressão paterna pode colocar em risco a saúde emocional de toda família, afetando inclusive o desenvolvimento da criança.

 

FIQUE ALERTA AOS SINTOMAS

·  Perda de interesse em atividades diárias;

·  Alteração do apetite;

·  Distúrbios do sono;

·  Agitação ou retardo psicomotor;

·  Fadiga;

·  Sentimentos de inutilidade;

·  Culpa inadequada;

·  Falta de concentração;

·  Sentimento de raiva;

·  Irritabilidade;

·  Rigidez afetiva;

·  Autocrítica;

·  Abuso de álcool e drogas.  

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