Dicas de Mãe

O desafio de manter o casamento depois da chegada do bebê

A mudança de rotina depois do nascimento de um filho tende a afastar os casais. Diferentes estudos mostram os números do “efeito bebê” nos casamentos. Ouvimos especialistas no assunto para descobrir como passar por esse período sem detonar de vez a relação.

As histórias de contos de fadas sempre terminam com o mantra do “foram felizes para sempre”. Mas, por alguma razão, as narrativas acabam nas festas de casamento. Na vida real, o “sempre” é destrinchado dia após dia e a felicidade torna-se uma fórmula variável dependente do momento e da rotina da vida do casal. Os dias seguintes à oficialização da união de duas pessoas, por exemplo, são marcados pelo entusiasmo e dedicação de um ao outro. A decoração da casa, a viagem a dois, ou jantarzinho preparado depois do trabalho só para abrir um vinho…Esses atos dão a sensação de uma escolha acertada e, nesse estágio, a sensação dos casais é mesmo a dos contos de fadas. Com o tempo, a parceria tende a aumentar e a estabilidade da relação também. Começam os planos para a chegada de um bebê. O filho é, sem dúvidas, a maior demonstração de que os dois acreditam na história de amor vivida até ali.

Depois da gravidez e suas emoções – ou dúvidas e inquietações-, o bebê chega à vida do casal. Não há como não tremer ao ouvir o choro de um filho que acaba de sair do ventre da mãe. O pai, ali ao lado, escondido atrás da máscara e da filmadora, pensa se é possível viver algo tão mágico…A alta hospitalar é outra festa. É hora de se emocionar carregando pela primeira vez aquela criaturinha frágil e pequena, enrolada na manta que combina com a roupa lavada com tanto carinho e antecedência.

Os dias passam e a nova rotina se estabelece rapidamente. As horas de sono da mãe são reduzidas a quase zero. O esgotamento físico e mental afasta qualquer possibilidade de raciocínio romântico em relação ao parceiro. O desejo de amamentar bem e colocar o filho para dormir um sono tranquilo e duradouro tornam-se rapidamente os principais objetivos de quem acaba de dar à luz.

A rotina cansativa e cheia de detalhes faz a mãe tomar a frente de quase tudo. Enquanto isso, o pai, em seu papel coadjuvante, perde espaço de prioridade na vida da mulher e ainda precisa lidar com a enxurrada de cobranças que chega junto com o bebê: a mulher espera dele um reflexo rápido com o choro repentino da criança; espera que ele copie seu jeito materno de segurá-la e ainda que tome iniciativas como a de avaliar se a temperatura está agradável no quarto do bebê, se a fralda está cheia o suficiente para ser trocada e se a roupa está adequada ao clima.

 

Não é fácil superar essa fase sem cicatrizes. Para ele, o maior problema são as cobranças exageradas que nunca serão supridas e a certeza de que seu esforço não é reconhecido. Enquanto isso, a mulher/mãe tem a sensação de que precisa enfrentar sozinha o trabalho mais  pesado e assumir um desgaste físico que não imaginava.  A falta de sono detona o humor da mãe, reduz seu desejo sexual, a capacidade de sentir prazer e aumenta a irritabilidade. Uma realidade que, segundo especialistas, pode durar até 18 meses após o nascimento do bebê.

“Nesse período, dizer o que pensam é delicado. Afinal, a mudança é resultado da chegada da pessoa mais importante das suas vidas e o amor pelo bebê deveria acobertar qualquer dificuldade. É como se reclamar da rotina significasse amar menos aquele pequeno ser”, diz a psicóloga Marta Calmon. Nesse contexto de negação e silêncio, a crise da vida real pode se instalar.

Diferentes pesquisas realizadas pelo mundo nos últimos anos mostram os números do “efeito bebê” nos casamentos.  Na  Austrália, o estudo  “o que o amor tem a ver com isso”, concluiu que 13% dos casais com um filho se separaram, enquanto o índice entre quem não tem filho é inferior a 8%. Quando as crianças possuem menos de cinco anos, os divórcios chegam a 14%: o dobro registrado entre casais com filhos maiores de 15 anos que já superaram essa fase. No Brasil, há dezenas de teses e estudos que tentam explicar essa dificuldade dos casais de permanecerem casados depois das mudanças que um bebê traz para a vida a dois.

 

A psicóloga gaúcha Clarissa Corrêa Menezes, doutora e mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano e especialista em terapia de casal e família, acompanhou casais durante dois anos para descobrir o efeito de um bebê nos casamentos. Concluiu, entre outras coisas, que a qualidade da relação conjugal estabelecida antes da transição para a parentalidade é que determinará se o casal passará pela crise de forma saudável ou não. Mas todos, de alguma forma, tiveram dificuldades com essa transição e mudança em suas vidas. “Logo que um filho nasce, é esperado e natural que o entusiasmo com a relação conjugal diminua um pouco. Entretanto, essa diminuição tende, em casais saudáveis, a ser transitória e os casais passam a se conectar e se entusiasmar novamente com sua relação conjugal. Essa retomada varia no tempo para cada casal, mas deve ser cultivada e procurada por todos”, diz ela.

Antes de jogar a toalha e desistir de vez da relação, a psicóloga sugere uma reflexão sobre os motivos que levaram o casal ao casamento e ao encantamento um com o outro. Segundo ela, parasuperar essa fase e seguir rumo a anos mais fáceis e parecidos com os sonhos do inicio da relação, é preciso colocar-se no lugar do outro e conseguir dizer o que pensa. Mais ainda: é preciso recorrer a uma pessoa de confiança para cuidar do bebê pelo menos uma vez por semana,para que o casal consiga fazer uma programação a dois, nem que seja por uma ou duas horas. As partes envolvidas precisam ter em mente que a crise é transitória, mas cada um precisa fazer a sua parte para superá-la. Passar por essa fase e seguir juntos não é uma tarefa fácil. Mas, com amor e habilidade é possível aumentar as estatísticas de casamentos que sobrevivem às mudanças bruscas na vida do casal impostas pela chegada dos filhos.

 

 

 

 

 

 

Confira a entrevista da doutora Clarissa Corrêa Menezes ao Maadu:

 

 

Maadu:   A senhora pesquisou a influência do primeiro filho no casamento e acompanhou a rotina de casais durante dois anos. O filho pode mesmo levar um casal para a crise matrimonial?

 

Clarissa: Não diria que um filho pode levar o casal a uma crise. O nascimento de um filho é, por si só, uma crise para o sistema familiar. Essa crise pode ser vivenciada de diferentes formas, por diferentes casais. Um casal que esta envolvido afetivamente, que desejou esse filho, que tem uma comunicação eficiente, tenderia a viver essa “crise” de forma satisfatória, saudável.

Assim, as mudanças que o nascimento de um filho ocasiona podem ser vividas como crescimento e evolução pelo casal. Sua união pode aumentar, seu senso de amor, respeito  e companheirismo também. De forma diferente, quando um casal não está bem ou não está maduro para viver tamanha mudança, o nascimento de um filho pode precipitar uma desorganização no sistema conjugal e um respectivo afastamento e até desligamento dos cônjuges. Em resumo, é a qualidade da relação conjugal estabelecida antes da transição para a parentalidade que determinará se o casal passará pela crise de forma saudável e construtiva ou não.

 

 

Maadu:  Suas avaliações apontaram para mudanças significativas no entusiasmo dos novos pais com o casamento? 

 

Clarissa:Num primeiro momento sim. A maior parte dos indivíduos que tem um filho passa a se envolver com esta nova função e todas as adaptações que ela requer. Atualmente, da mesma forma que as mulheres, os homens tem desejado e efetivamente participado das tarefas de cuidado e educação dos filhos. Assim, logo que um filho nasce, é esperado e natural que o entusiasmo com a relação conjugal diminua um pouco. Entretanto, essa diminuição tende, em casais saudáveis, a ser transitória e os casais passam a se conectar e se entusiasmar novamente com sua relação conjugal. Essa retomada varia no tempo para cada casal, mas deve ser cultivada e procurada por todos.

 

 

Maadu:  O que pode ser feito pelo casal para evitar que a chegada do filho provoque uma crise no casamento ou agrave as divergências pré-existentes? 

 

Clarissa: De forma geral, os indivíduos devem respeitar o ritmo de cada um de se envolver com as novas tarefas de pai e mãe. Esses ajustes são delicados e precisam ser vivenciados com tranquilidade e respeito. A comunicação entre o casal também deve ser especialmente cuidada.

Quanto mais precisa e assertiva for a comunicação, menos erros e confusões ocorrerão. Dizer com clareza o que deseja ou precisa um ao outro pode ser um bom começo!

Além disso, os cônjuges devem ter em mente que, assim que for possível, precisam estabelecer um tempo a sós como casal, para que possam se reconectar com o que os encantava e os unia anteriormente ao nascimento do filho: um ao outro.

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