Crianças

Limitar o uso de eletrônicos é uma prova de amor aos filhos

*Por Carina Roma

“Mas, mãe, todos os meus amigos jogam!”. Diante do apelo que todas nós, mães, já ouvimos várias e várias vezes fica a dúvida:  devemos ou não ceder aos apelos de nossos pequenos em relação aos jogos e passatempos eletrônicos? É preciso estabelecer limites? Quais os reais benefícios e possíveis malefícios para as crianças que brincam com jogos e aparelhos eletrônicos regularmente?

Não temos como negar que a tecnologia é uma grande aliada em nossas vidas e que está mudando radicalmente a forma como percebemos e interagimos com o mundo. Entretanto, na educação das crianças, deve valer a regra simples de que tudo na vida deve ser equilibrado e dosado na mais justa medida. O uso que fazemos dos eletrônicos também deve se pautar pelo mesmo bom senso. E se é difícil para nós, adultos, exercermos algum controle em meio a infinitos “toques” disponíveis, imaginemos a dificuldade de gerenciamento que nossos pequenos têm pelo simples fato de já terem nascido imersos nesse “novo mundo” em que quase tudo é acessível na palma das mãos.

Existem vários estudos feitos a respeito dos benefícios que o uso moderado de eletrônicos pode acarretar ao desenvolvimento cognitivo de crianças e adultos, pois os estímulos visuais e sonoros somados à indução do raciocínio em alguns jogos ativam áreas cerebrais específicas ao mesmo tempo, gerando conexões sinápticas complexas que auxiliam no aprendizado posterior. Sendo assim, não é necessário e nem indicado restringir totalmente o contato das crianças com as novas tecnologias.

Porém, isso não significa que o livre uso deva ser incentivado, uma vez que há riscos  de vício e alienação por causa da sedução que os estímulos causam ao ativarem as conexões cerebrais complexas. Na linguagem das crianças, o que não é tão excitante se torna chato. Dessa forma, atividades como desenhar, brincar com jogos de tabuleiro ou com brinquedos mais simples, conversar, ler, ouvir histórias se tornam enfadonhas. Como mães, conhecemos bem essa dinâmica e, ao cedermos aos apelos infantis, ajudamos a perpetuar um ciclo vicioso extremamente nocivo ao desenvolvimento de nossos filhos.

Como ocorre com qualquer outro tipo de vício, um cérebro acostumado a super estímulos vai pedir cada vez mais e deixará de ativar outras conexões igualmente importantes e complementares como, por exemplo, as que relaxam e que promovem a saudável contemplação da vida e da natureza, o aprendizado da empatia e o desenvolvimento da inteligência emocional. O excesso de estímulos não permite que a pessoa apreenda essas nuances mais sensíveis e daí surge a temida alienação.

E os sintomas de uma criança alienada são fáceis de notar. Para ela, nada mais importa a não ser personagens, fases ou objetivos do jogo…Ao mesmo tempo, a família e as relações ficam em  segundo plano, os estudos e obrigações perdem o sentido e a qualidade do sono fica comprometida. É diante dessas características de comportamento que são abertas grandes possibilidades de instalação de transtornos psicológicos e psiquiátricos como depressão, fobias, hiperatividade, ansiedade e todos os seus desdobramentos. Transtornos que vêm se apresentando cada vez mais cedo na vida de muitas crianças.

E é por isso que é preciso estabelecer limites para uso de eletrônicos. Essa limitação deve levar em conta não apenas a faixa etária da criança, mas também sua personalidade e suas inclinações. Quanto mais nova a criança, menor também deve ser o tempo de exposição aos eletrônicos e com uma periodicidade mais estendida. Isso porque é necessário praticamente o triplo do tempo para desacelerar a mente infantil depois de submetida a super estímulos.

Se a criança é introvertida e tem mais dificuldades de conversar e se relacionar fora das telas, o cuidado deve ser redobrado. Se nossos pequenos só sabem conversar sobre os games, o sinal de alerta deve ser aceso também. Por isso, ninguém melhor que os responsáveis pela criança e que a conhecem a fundo para estabelecerem os limites, pois não há uma única receita para isto.

Contudo, eis aí nosso maior desafio, especialmente como mães: essa postura não agradará nossos pequenos, que tentarão nos convencer do contrário de todas as formas possíveis: birras, choros, chantagens emocionais…Especialmente se levarem em conta os modismos que vêm acompanhados pelo apelo da grande massa de amiguinhos que tem, que usa e que não encontra restrições para o uso de jogos e eletrônicos.

O objetivo dos jogos e a classificação indicativa também devem ser considerados. Não creio que uma pessoa vá se tornar violenta apenas por jogar jogos em que é preciso exterminar outros jogadores ou alvos. Porém, se já existe naquela criança a tendência à agressividade, isso poderá será reforçado. E alguns tipos de jogos tendem a viciar mais: são justamente os que constroem um mundo paralelo e levam adultos e crianças a uma rápida e prazerosa alienação.

Eu confesso e todas nós sabemos que é muito mais fácil e confortável ceder. O problema é que quanto mais cedemos, mais difícil fica restringir depois. Eu costumo dizer que conversar sobre o perigo da viciação em drogas não é muito diferente disto. Então, penso ser melhor começar a limitar agora e a explicar aos nossos filhos o motivo das restrições. As crianças entendem tudo, por mais que não gostem da decisão. Impor limites demonstra cuidado, preocupação e amor. Nossos filhos nos entenderão um dia, se estiverem lúcidos e bem preparados para o mundo real. Afinal, a missão de quem educa é também afastar as crianças do que pode atrapalhar seu desenvolvimento pleno e saudável.

 

* Carina Roma é psicóloga, escritora e consultora em comunicação. É casada, mãe do Artur,8, e do Henrique, 5.

Contatos: [email protected]

www.carinaroma.com.br

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Uma resposta “Limitar o uso de eletrônicos é uma prova de amor aos filhos

  1. Renata Alves disse:

    Excelente artigo! Meu filho vem sempre com essa que os amigos jogam e eu termino deixando, com medo dele ser o unico diferente. Vou ser mais dura, sem consciência pesada.

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