Dicas de Mãe

Irmão com ciúme do bebê? A culpa pode ser dos pais!

Embora existam centenas de justificativas para o ciúme entre irmãos, há uma coisa em comum entre os pais que sofrem com o comportamento do filho mais velho: a inabilidade de dividir a atenção de forma minimamente parecida. O Maadu mostra o que dizem estudos de especialistas sobre os erros mais comuns, e mostra sugestões para minimizar os problemas.

 

A última viagem de avião que fiz grávida nunca me saiu da cabeça. Eu estava com uma barriga imensa, com minha filha de 4 anos e todas as dúvidas que ocupam a mente de alguém prestes a ter o segundo filho. Seria eu capaz de evitar danos a ela ao dividir seu espaço, meu colo e minha atenção por dois? Eu seria capaz de fazer a coisa certa e evitar que ela se tornasse birrenta por carência e que enxergasse seu irmão como ameaça à vida de exclusividade que viveu até ali? Eu não sabia de muita coisa, mas observava o mundo das mães com mais de um filho com muita atenção. E, naquela viagem, estava a resposta para uma das minhas principais dúvidas. O ciúme entre irmãos é responsabilidade da falta de habilidade dos pais? Hoje estou certa que sim.

 

Durante o voo de duas horas, observei sem constrangimentos o comportamento de uma família com um bebê e uma menina de uns 5 anos que viajava na nossa fileira, do outro lado do corredor. A menina desenhava e tentava, sem sucesso, mostrar o que havia feito aos pais e puxar alguma conversa sobre a escola. O pai, sentado na cadeira do meio, não conseguia prestar atenção na filha. Ele tinha o corpo voltado para a mãe e o bebê, sentados ao lado da janela, e praticamente dava as costas para a garotinha, que seguia desenhando.

 

A certa altura da viagem, ela começou a dizer que estava com fome. Gritou porque queria que comprassem batatas e achocolatado e passou a chutar a cadeira da frente de forma descontrolada. Diante do escândalo, a mãe voltou-se para ela, deu-lhe um sermão, entregou o bebê ao marido e levou a menina para o banheiro. Ela então voltou mais calma, seguiu desenhando e esqueceu-se das batatas. O que ela queria afinal? Atenção é claro! Isso era evidente para os passageiros que assistiam à cena. Mas não para aqueles pais.

 

Ao perceber que eu os observava, a mãe se dirigiu a mim com ar ainda sem paciência e desabafou: “Ela anda se descontrolando muito. Faz isso por ciúme do irmão! Já briguei, já conversei e nada adianta. Você vai ver só quando seu outro nascer… ”, disse ela como quem buscava cumplicidade.

Confesso que naquele momento, eu pensei em opinar sobre a falta de atenção que estavam impondo a filha e dizer o que eu pensava sobre a culpa (evidente) dos pais naquele comportamento dela. Mas me contive. Apenas balancei a cabeça.

 

Até hoje, no entanto, não esqueço aquela família. O que a mãe achava que estava fazendo? Pensava que iria ignorar uma criança e ela não sentiria nada, não reagiria de alguma forma? Queria realmente que a criança aceitasse o pai lhe dando as costas para mimar o irmão? Como achavam que a criança mais velha deve reagir a sensação de ser deixada de lado?

 

Inspirada naquela mãe, comecei a pesquisar sobre as causas de ciúme entre irmãos. E, embora existam centenas de justificativas – como a divisão do espaço, dos brinquedos, do colo e das atenções –, nada fica mais nítido para mim do que uma coisa em comum entre todos os pais: a inabilidade de dividir suas atenções entre os filhos de forma minimamente parecida. Afinal, cabe aos pais conduzir esse processo e é responsabilidade deles – creio que nos primeiros meses é ainda mais da mãe-, estabelecer um comportamento que evite danos psicológicos à criança mais velha pela chegada de um bebê.

 

Essa possibilidade que os pais possuem de minimizar o ciúme do irmão mais velho em relação ao menor foi abordada em alguns dos artigos da psicóloga Marilena Teixeira Netto, do Rio de Janeiro.  Ela afirma que os pais precisam estar atentos às próprias atitudes antes de simplesmente constatar o ciúme entre os filhos e achar que é um comportamento próprio das circunstâncias ou inevitável.  “Precisamos estar atentos e tomar cuidado com nossa atitude como pais. A comparação é uma das atitudes que devemos evitar. Portanto, avalie qual tem sido seu comportamento em relação à comparação, e esteja pronto para mudar”, diz ela.

 

Segundo a psicóloga, o ciúme é normal e esperado. Ele passa a ser um problema se os pais não souberem como agir e se realmente não conseguirem evitar comparações e atenções desproporcionais entre os filhos. “A habilidade e o equilíbrio de elogios e estímulos é uma excelente alavanca para fortalecer e ajudar os filhos a suportarem suas diferenças”, defende.

 

O site americano Understanding Childhood divulgou dezenas de pesquisas e estudos sobre o tema. A maioria deles, mostra a preocupação dos psicólogos infantis com o ciúme entre irmãos e citam erros de conduta dos pais. Em um desses estudos, o Child Psychoterapy Trust afirma que o sentimento inicial de insegurança do filho mais velho é normal porque há o receio de “ser deixado de lado” e a dúvida sobre as expectativas que existiam em torno do seu nascimento. O estudo sugere: “Ao falar dos aspectos positivos, compartilhe, também, as futuras dificuldades com o bebê. Um bebê novo consome muito tempo, chora muito e vira o mundo de todos do avesso. Seu filho pode querer voltar a ser bebê de novo por algum tempo, e não ser mais o irmão mais velho. Ele precisa saber que não faz mal se não se sentir maravilhado com a chegada do novo irmãozinho, se tiver ciúmes e ficar zangado sempre que as suas necessidades ficarem em segundo lugar. Você precisa fazê-lo sentir-se amado”, sugere o estudo americano.

Colocar esses conselhos em prática não é impossível, embora pareça à primeira vista. Para ajudar, selecionamos uma lista com os principais erros que os pais cometem com os filhos mais velhos depois da chegada do bebê, e listamos as dicas de especialistas para minimizar os problemas. Confira:

ERROS FREQUENTES DOS PAIS

Passam a acreditar que a criança mais velha cresceu de repente. Como o referencial agora é um bebê, a impressão é mesmo de que o outro deveria ser mais independente.

Contabilizam a presença na natação ou a ajuda com o dever de casa como tempo dedicado ao filho mais velho.  Na verdade, a conta somente deveria incluir as horas de brincadeiras ou passeios com ele.

Justificam as negativas dadas ao mais velho pela presença do irmão: não podemos ir ao parque porque seu irmão é pequeno; temos de ir embora cedo da festa porque seu irmão vai dormir; não posso te dar atenção agora porque estou com seu irmão…

Acreditam que tudo que o mais velho faz é para chamar atenção por causa do bebê. Na verdade, é por sua causa! Se a criança precisa fazer birra para ser notada, ela fará!

Obrigam o mais velho a dividir todos os seus brinquedos com o mais novo. Sempre que o pequeno chora, a saída mais comum é mandar o maior entregar o objeto ao irmão e muitas vezes, chamá-lo de egoísta.

Esquecem de dizer (e provar) para o mais velho que ele também foi bebê e foi tratado sempre com o mesmo amor e atenção dados ao irmãozinho.

DICAS PARA ACERTAR MAIS

Lembrem-se que a idade do mais velho continua a mesma e sua necessidade de atenção e cuidado não foi alterada porque o outro filho chegou.

Pensem se passa realmente algum tempo de qualidade com o mais velho, ou usam o tempo juntos apenas para atividades escolares ou esportes sem interação direta com vocês.

Formulem com cuidado as frases e justificativas dadas ao mais velho. Mesmo que ele não possa fazer algo por causa do irmão, o melhor é encontrar outras razões: não vamos ao parque porque está tarde; vou cuidar do seu irmão primeiro para o choro dele não atrapalhar você…

Se notarem que o mais velho está descontrolado ou irritado, tente ouvi-lo com atenção. Explique os seus motivos para não parar o que está fazendo e dedicar-se exclusivamente a ele naquele momento.

Aprender a dividir é bom. Mas é preciso respeitar o espaço de cada um. Sugira que o maior guarde os seus brinquedos preferidos antes que o pequeno veja, pedindo que ele mostre ao irmão algum objeto que possa compartilhar.

Mostre ao mais velho as ecografias, os vídeos dele quando era bebê e fotos dos pais e parentes mimando-o, para que ele saiba que já passou pelo que o irmão está vivendo.

Fontes: Child Psychoterapy Trust, Understanding Childhood

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