Vida Real

De repente, grávida!

Nunca pensei em ser mãe. Pelo menos não naquele momento da minha vida. Estava no ápice da juventude, esperava ansiosa pelos meus 18 anos e os projetos que eu tinha não envolviam uma criança. Meu nome é Maíra Souza, atualmente tenho 20 anos e engravidei aos 17, logo depois de concluir o ensino médio. É difícil admitir, mas o sonho de algumas mulheres se tornou um grande pesadelo para mim.

Engravidei do meu namorado. À época, estávamos juntos há dois anos e apesar de termos um relacionamento estável, não estava nos meus planos assumir uma gravidez naquele momento…Eu ainda não conhecia bem o meu corpo, não tive a preocupação de fazer tabelinha ou usar anticoncepcional e, por conta da timidez, nunca fui fã das visitas ao ginecologista. Para piorar, não mantinha uma relação aberta com a minha mãe e não me sentia confortável para contar sobre o início da minha vida sexual. Por conta disso, descobri a minha gravidez quando já estava com 12 semanas.

Depois de ter desmaiado algumas vezes e perceber as mudanças no meu corpo, decidi fazer o teste de farmácia torcendo para dar negativo, embora no fundo soubesse que estava grávida. Quando fiz o teste, logo apareceram as temidas duas linhas. Entrei em desespero! Chorava todas as noites até pegar no sono.

O pai do meu filho aceitou a gravidez desde o primeiro momento e nunca cogitou a ideia de um aborto. Eu sim. Afinal, eu sabia que não poderia contar com ele para ajudar na criação de um filho. O apoio da minha família ainda era uma dúvida e eu não imaginava como os amigos iriam reagir. Eu me sentia completamente sozinha e desamparada, contando apenas com o apoio de um namorado ciumento e controlador que admitiu querer o filho para me prender a ele.

Durante aqueles dias, eu só pensava em toda uma vida que tinha pela frente e nos sonhos que eu não poderia realizar. Achava que seria um peso para minha família, já que eu não teria como sustentar uma criança nos seus primeiros anos de vida. Pensei ainda nos amigos que perderia porque não poderia sair mais como antes ou aproveitar a minha juventude, como eles seguiriam fazendo.

A maioria dos meus pensamentos eram egoístas, admito. Mas foi inevitável sentir que eu estava perdendo a melhor fase da minha vida por um descuido pelo qual eu seria responsabilizada integralmente para sempre.

Inicialmente eu mantive a gravidez em segredo e tinha esperança que ela não vingasse. Em contrapartida, já começava a pesquisar sobre parto e maternidade. No fundo, eu sabia que não havia nada que pudesse ser feito. Decidi começar a contar da gravidez para os amigos mais próximos e a medida que eu ia contando, eles entravam em desespero junto comigo.

Todos os dias eu me martirizava por não ter coragem de contar à minha mãe o que estava acontecendo. Eu sabia que tudo iria melhorar se ela me apoiasse e me ajudasse naquele momento. Entretanto, minha vergonha não permitia o diálogo franco com ela. Afinal, não era isso que ela havia sonhado para mim e eu não queria ser motivo de desgosto.

Enfim, com 17 semanas de gravidez tomei coragem e decidi dividir meu desespero com minha mãe. Naquela altura, o bebê já estava mexendo dentro de mim e eu sabia a importância de um pré-natal. Ao receber a notícia, ela teve a melhor reação que eu poderia esperar. Ao constatar que a situação era irreversível, minha mãe simplesmente parou por alguns segundos, olhou para mim e sem pensar muito disse que no dia seguinte iria comigo fazer uma ecografia.

Naquele momento, me senti amada e acolhida e a ideia da gravidez não me parecia mais tão ruim. Fomos juntas iniciar os exames do pré-natal e na primeira consulta já pudemos escutar os batimentos cardíacos do meu bebê e descobrimos que era um garoto. Senti a maternidade pela primeira vez e passei a acreditar que as coisas poderiam dar certo.

A partir daquele momento, percebi que embora tivesse de enfrentar algumas dificuldades, meus sonhos não haviam se tornado impossíveis. E eu era capaz de seguir em frente e ser uma boa mãe. Aceitei o fato de que me tornaria mãe e não poderia ficar inerte diante da situação.

Tive uma gravidez tranquila e o parto foi dentro do planejado. Ravi nasceu no dia 30 de janeiro de 2015, pesando 3,250kg com 51cm. Àquela altura, minha mãe já se mostrava uma avó amorosa e dedicada. Tudo parecia, finalmente, ir bem.

Mas, nos dias seguintes, fui tomada por tristeza e melancolia. Mesmo sabendo que fui acolhida e amada, eu me sentia isolada. Era como se eu estivesse em uma bolha e não permitisse a ninguém ultrapassar as barreiras que construí. Pensava que meu bebê poderia me odiar devido aos sentimentos ruins que tive durante a gravidez. E se ele não me amava, eu também não teria motivos para amá-lo… Chorava sozinha o tempo inteiro e sentia raiva por ter que ser mãe e passar por tudo aquilo. Apesar de não encontrar muita coisa relacionada a gravidez na adolescência que pudesse me ajudar, eu havia lido alguns relatos de mulheres que sofreram de depressão pós-parto. Identifiquei os sintomas relatados e notei que precisava de ajuda profissional.

Hoje vejo as coisas com muito mais otimismo. As dificuldades não passam, elas mudam. Acredito que o instinto materno não existe, ele é estrutural. E tudo bem você não querer ser mãe ou achar que não está pronta para isso! Passados dois anos desde que o Ravi chegou a minha vida, posso dizer que a cada dia perto dele eu aprendo mais sobre o amor. Eu amo demais o meu bebê grande e estou certa de que seria uma pessoa totalmente diferente se ele não tivesse vindo colocar rédeas na minha vida. Por ele, me tornei uma pessoa muito melhor, com outros objetivos, outras metas e novos sonhos. Não digo que está sendo fácil – acho que pra nenhuma mãezinha é -, mas não imagino mais a Maíra sem o Ravi.

 

*Maíra Souza é estudante de jornalismo

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2 respostas em “De repente, grávida!

  1. Carolina Vieira Simões disse:

    Eu também engravidei cedo. Pensei tudo que a Maira pensou, mas pensei também em me matar. Acabaria aquela angustia, aquela dor e a vergonha. Ainda bem que nao fiz nada disso.
    Hoje, morro de amor pela minha filha, que é a razão para que eu acorde, levante e trabalhe. Namorado pra mim, só se amá-la como filha, mesmo assim, fico bemmmm de olho porque nunca sabemos onde estão os pedófilos.
    Relatos como esse mostram que nós, realmente superamos tudo e que o apio dos pais é fundamental. Maira, vc e o Ravi formam uma dupla linda!!!! Felicidades e parabens para a sua mãe!!

  2. Wilma Araujo disse:

    No consultório, o que vejo muito são essas mãezinhas totalmente sem rumo. Desse relato, podemos concluir que o apoio da mãe resgatou a adolescente. Se os pais de meninas grávidas entendessem isso, os problemas seriam bem menores.

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