Vida Real

O renascimento de uma mãe

Eu sempre quis ser mãe. Namorava havia seis anos e casei-me em 2006. A partir dali, o sonho de ter filhos e formar uma família se mostrava viável e muito próximo. Poucos meses depois do casamento, eu sentia muitos sintomas de gravidez, mas sofria com dores abdominais insuportáveis até que fui diagnosticada com gravidez tubária. No hospital, o médico explicou que iria cortar a trompa onde o embrião estava e depois costurá-la novamente. Não parecia ser nada grave e segui para a cirurgia.
Já na sala de recuperação, o anestesista resumiu o ocorrido: “Você perdeu uma trompa, mas está tudo bem”. Meu mundo desabou! O que fizeram comigo? As chances de enfrentar uma nova gravidez com uma única trompa estavam reduzidas e meu sonho de ser mãe parecia distante demais… Diante da minha frustração e do choro que eu não conseguia controlar, meu então marido me apoiava afirmando que teríamos outros filhos, que venderíamos carros e o que fosse preciso para fazermos o tratamento. Aquilo me acalmou e me deu forças para tentar novamente.
Cinco meses depois eu estava grávida mais uma vez. Mas o bebê não aparecia no ultrassom… A cada semana, um novo exame tentava localizar o embrião e a certeza de que era novamente uma gravidez tubária veio na sétima semana de gestão. O coraçãozinho dele batia, mas ele estava no lugar errado e não poderia se desenvolver.  Desta vez, parecia possível fazer a cirurgia por vídeo e salvar a trompa. Mas ela estava comprometida e foi cortada também.
A partir dali, nós começamos a economizar cada centavo dos nossos salários para fazer um tratamento de Fertilização in Vitro. No ano seguinte, engravidei de gêmeos. Foi uma gravidez de risco do começo ao fim, mas minhas duas crianças nasceram saudáveis. Era um sonho realizado e a alegria que sentia não poderia ser explicada!
Com dois bebês em casa, nossa rotina girava em torno deles. Era uma felicidade imensa e eu tinha a sensação de que o sonho de formar uma família enfim havia se concretizado. Até quem em abril de 2012, o pai dos meus filhos decidiu mudar de vez para São Paulo e nos separamos. Eu segui em Brasília com meus dois filhos de três anos. Eu sabia que as dificuldades seriam muitas…
Meu primeiro baque veio na semana seguinte à separação. Minha filha foi diagnosticada com pneumonia e o médico disse que seria caso de internação. Mas como ela era muito pequena, eu teria de ficar junto no hospital. Como eu faria isso se também precisava cuidar do outro filho? Comprometi-me a dar a medicação na hora certa, para evitar a internação. Conseguimos fazer o tratamento e ela ficou boa. Mas, a cada semana, um deles ficava doente. As minhas ausências e preocupações começaram a afetar o meu desempenho profissional e eu precisei procurar um local mais humano para trabalhar, onde os colegas não me olhassem de cara feia cada vez que eu chegasse atrasada por causa de uma noite mal dormida ou porque precisei levar meus filhos ao médico.
A minha rotina incluía cuidar das crianças, ir ao trabalho e frequentar a igreja. Estava cansada e abatida. A cada dia havia problemas e coisas para administrar e eu terminei deixando minha própria vida de lado. Até que após uma festa de família, a namorada do meu primo tomou a liberdade de me ligar. Contou  que se separou antes de o filho completar um ano e que se eu precisasse conversar com alguém, tomar um café, era para eu não ter vergonha de ligar para ela. Eu disse: “preciso sair para dançar!”
Naquele momento, percebi que mesmo se eu ficasse todo o tempo com os meus filhos, era preciso estar feliz e de bem com o mundo para passar o melhor de mim a eles. Comecei então a me incluir entre minhas prioridades. Fui para a academia e deixava as crianças na brinquedoteca enquanto fazia o treino. Passei a recorrer a uma rede de babás folguistas durante os finais de semana, para conseguir sair um pouco e fazer programações que não fossem infantis. Meus filhos entenderam que sou mãe, que os amo mais do que tudo,  mas também tenho a minha própria vida.
De 2012 para cá, já passamos por alguns perrengues. Com a separação, nossa renda caiu. Então, os programas caros foram substituídos por opções gratuitas, como parques públicos e pracinhas. Cheguei até a perder a conta de quantas vezes fomos ao zoológico em um único ano! Já precisei leva-los ao ginecologista comigo a noite e também recorri aos meus pais ou a vizinha do 6º andar em plena madrugada pedindo ajuda. Mas temos ultrapassado todos os obstáculos!
Em 2015, em uma das vezes que deixei as crianças com a folguista para ir ao aniversário de um amigo, conheci o Heitor. Depois de um passeio no parque no domingo, ele nos ajudou a levar as bicicletas para o carro e me deu um abraço na frente das crianças. Quando entrei no carro, minha filha disse de forma natural e sem questionamentos:  “ele é seu namorado!”
E é dessa forma leve e sincera que eu tento conduzir nossas vidas. O que eu consigo fazer, eu faço. Se não consigo, explico a eles que não foi possível. Minha filha quer que eu me case. Ela acha que se eu casar, terei mais tempo para cuidar deles, como várias mães da escola fazem. Disse a ela que nossa realidade é diferente das outras crianças da escola, mas igual a de muitas outras crianças pelo Brasil. Quero que meus filhos entendam que precisamos ser  fortes para enfrentar as dificuldades que aparecem no nosso caminho. Quero que percebam que podemos ser felizes com a vida que temos se olharmos para ela de frente e com otimismo, nos respeitando e nos dando o direito de renascer sempre que for preciso.

 

Vanessa Cordeiro é mãe, divorciada, servidora pública e jornalista.

 

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6 respostas em “O renascimento de uma mãe

  1. Helena disse:

    Linda experiência de vida. Parabéns.

  2. Priscila Oliveira disse:

    Que lindo Van!
    Bom saber q no meio desse percurso nos conhecemos.
    Te desejo toda felicidade do mundo, pq nos merecemos!!!!!!

  3. Heloisa Vilela disse:

    Não sei sei choro lendo esse depoimento ou se vou a um salão e ligo para uma babá folguista para sair para dançar hje a noite. Certeza é que essa história mexeu comigo.
    Meu marido me deixou com a bebê de 1 ano e 3 meses. Em vez de malhar, como voc~e fez, engordei e fiquei arrasada!
    Ele arrumou outra bem bonita e eu até agora não arrumei ninguém. Mas estou animada para me cuidar mais e ir à luta! Valeu muito ler isso!

  4. Gabriela Villa disse:

    Separei qnd meu filho tinha 3 anos também e não consigo sair para paquerar ou conhecer pessoas. Vou dar um jeito nisso! Antes tarde do q nunca! Sua experiencia é bela.
    E a forma discreta como fala do marido q mudou pra SP, até ameniza a interpretação de que na verdade ele abandonou a familia né? Pq o meu fez parecido e se eu fosse escrever um depoimento sobre isso, nao pouparia xingamentos…rs
    Parabens pelo texto bem escrito e pelo cuidado com as palavras qnd fala dele.

  5. Valdirene Santos disse:

    Que belíssima experiência Vanessa, como você sabe sou mãe /pai de gêmeos também e sei bem o que é arcar com todas as responsabilidades sozinha! ! Parabéns pela mulher que você é! !!

  6. Alessandra Flach disse:

    Vanessa, guria, você amenizou partes que nem deveria. Sei bem como você enfrentou tudo isso. Com a perda da Eruza no meio do processo, ainda. 🙁 Mas você é fortaleza e isso se reflete nas crianças, que são incríveis. Meus primeiros gêmeos. Amo vocês. <3

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