Conselho é Bom

O preço do nosso tempo

Não posso dizer que sou o tipo de gente viciada em consumo. Mas, por muitos anos, fui aquela compradora online que clicava em absolutamente todos os links de produtos infantis que apareciam para mim; o tipo de internauta que o Google e o Facebook podiam contar para contabilizar o sucesso dos anúncios dirigidos para cada público. Comigo, era só sugerir roupas e brinquedos para as crianças que lá estava eu realizando minhas comprinhas diárias.

Demorei a perceber o que estava acontecendo… Como trabalhava muito, carregava uma culpa imensa por não estar em casa quando minha filha chegava da escola. Por mais que eu me esforçasse para estar presente em sua rotina, eu convivia  com ela com a pressa de quem precisava cumprir horários.

Sem perceber, passei a acreditar que por conta da distância que a rotina do meu trabalho estava impondo a nós duas, eu deveria recompensá-la. E a maneira mais fácil que encontrei para fazer isso foi dando a ela os brinquedos que apareciam nos comerciais, um monte de roupas novas e qualquer treco pelo qual ela demonstrasse interesse.

Como as entregas eram feitas quase sempre nos horários em que eu não estava em casa, minha filha começou a associar minhas ausências aos presentes fora de hora que ela recebia. Embora hoje me pareça claro o que estava acontecendo, eu demorei a perceber meus próprios erros.

Só fui me dar conta quando ela, no meio de uma conversa, disse que a melhor coisa de ter ganho um irmãozinho era a minha presença em casa. Como eu estava de licença maternidade, conseguia levá-la e buscá-la na escola com tranquilidade e ainda com tempo para lanchinhos e bate-papos no fim da tarde. Ela estava feliz com aquila nova realidade, mesmo dividindo a mãe com o bebê e sem ganhar presentes fora das datas comemorativas!

Naquela conversa com ela, expliquei que precisava ganhar dinheiro e que fazia o que gostava, na profissão que escolhi. Eu disse que se eu estivesse sempre em casa, ela não poderia ter tanta coisa e nem passear ou viajar como fazíamos… Duda então, aos seis anos, pensou por alguns minutos até dar a sentença: “mãe, eu acho que prefiro você aqui do que ganhar todas essas coisas”.

Desde então eu nunca mais fui a mesma! Reduzi o horário de trabalho, adiei os projetos profissionais que exigiam dedicação exclusiva e falta de rotina, troquei a escola dela de horário integral para uma de um único turno para almoçarmos juntas.

Embora, na prática, o nosso padrão de vida permaneça o mesmo, para nós duas as coisas mudaram. Minha filha entendeu que a minha ausência em casa está diretamente ligada aos nossos desejos consumistas; que para conseguir ganhar a boneca e os eletrônicos que desejava, teria de abrir mão de longas horas comigo.

Diante dessa constatação, ela nunca mais enlouqueceu diante dos comerciais de televisão; não faz listas enormes com os brinquedos que deseja e passou a questionar o preço das coisas, numa tentativa de compreender qual meu nível de esforço para atendê-la.

Eu, mais presente, não sinto a necessidade de compensá-la com roupas, brinquedos ou compras desnecessárias. Finalmente percebi que, muitas vezes,  os filhos não precisam ganhar nada a não ser um bom pedaço do nosso tempo dedicado a eles.

Izabelle Torres ( [email protected])

É jornalista, mãe da Duda, de 6 anos e do Lipe, de 1 ano. É coordenadora do Maadu e escreve às sextas nesta coluna.                                            

 

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2 respostas em “O preço do nosso tempo

  1. Wilma Nóbrega disse:

    Parabéns! Vale compartilhar! Centenas de milhares de mães passam pelo mesmo drama e sua experiência, sem dúvidas, poderá ajudar muitas delas.

  2. Joana castelhano disse:

    Concordo com a Wilma Nobrega. Decidir mudar o estilo de vida e adiar os planos profissionais mais ambiciosos é o tipo de escolha que deve ser compartilhada com outras mães. Ótimo texto.

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