Amor

Babás na medida certa

Passava das 18 horas na festa infantil. Depois de brincar quase quatro horas sem parar, algumas crianças davam sinais de esgotamento e irritação. Chorando, duas garotinhas se aproximam da mesa onde estava uma dezena de mães. A primeira reclama de um empurrão que levou do colega e a mãe se levanta assustada para ver se havia machucados. Ameaça ir lá pedir explicações, mas desiste quando vê que a mãe do garoto já se encarregava disso. A outra menina chorava magoada por ter perdido a vez no escorrega inflável. Sua mãe, ao detectar o problema, faz um sinal para uma moça que estava pegando um refrigerante. Vestida de branco, a mulher vem correndo ao encontro da criança que chora sem parar e rapidamente a pega no colo, enquanto alisa seus cabelos e tira uma água da bandeja da garçonete. A mãe, aliviada pela trégua do choro da filha, manda a mulher oferecer um suco a criança. “É de maracujá de caixinha. Ela detesta”, responde a moça com a criança no colo. “Ah…”, diz a mãe sem graça enquanto enfrenta o olhar desconfiado das outras sete mulheres sentadas à mesa. A babá sai com a criança já calma e sem sede e retoma as brincadeiras.

Em outro canto da festa, um menino no braço de uma mulher chique, num salto 14 e um colar que devia pesar um quilo, grita desesperado chamando por Eva. A mãe tenta segura-lo enquanto olha nervosa para a porta do banheiro feminino. Para seu alivio, e do garotinho, de lá sai uma moça e pega rapidamente o menino em seu colo. Ele se acalma e volta a brincar. A moça chique, por sua vez, retorna à mesa das mães. Segue tomando seu suco enquanto conversa sobre a última viagem à Disney e a trabalheira que o filho deu ao viajar sem Eva.

Os dois cenários numa mesma festa têm em comum a dependência e a segurança que as crianças sentiam nos braços das suas babás. Cenas que levaram observadores mais atentos a uma reflexão. Em silêncio, as mães com mais intimidade trocavam olhares e gestos sobre aquelas cenas em que as babás apareciam no primeiro plano da vida daquelas crianças.

É claro que não se discute a importância e o alivio que é ter alguém em casa para ajudar com os filhos. Afinal, há as roupas, a comida, os brinquedos espalhados, as brincadeiras que precisam ser feitas bem no horário do expediente do trabalho… Mas e o amor? É possível pagar alguém para suprir lacunas deixadas pelos pais? Quanto custa o carinho espontâneo de uma pessoa estranha aos nossos filhos e que muitas vezes deixa os seus próprios em casa? Mais ainda: é confortável para a criança sentir-se segura nos braços de uma babá e essa mulher entender mais dos gostos e das preferências do seu filho do que você mesma?

Sempre que encontro alguém que divide a responsabilidade da maternidade com uma babá, sinto pena das crianças. Mas também dos pais. Afinal, que triste deve ser perder a cara que um filho faz ao experimentar uma nova comida, saber quais matérias escolares ele mais gosta e até sentir o prazer de ensinar uma coisa nova e assistir sua reação ao aprender. É esse tipo de coisa que constrói e alimenta a relação de amor, admiração e parceria.

A infância passa rápido e é nela que se guardam as melhores memórias. Seja o passeio no parque, a mangueira do jardim, a fruta estranha que se tira do pé, a corrida de bicicleta pela rua ou até o sorriso ao acertar uma conta de matemática usando as dicas que você deu. Esses momentos não voltarão e passam com uma rapidez incrível.

Se você trabalha durante a semana, cuide pessoalmente dos seus filhos aos sábados e domingos. Faça você a comida deles, converse sobre a escola e, principalmente, ensine-lhes alguma coisa nova. Torne-se referência de segurança nas festinhas infantis e aprenda a lidar e entender suas birras.

Da próxima vez que for contratar uma folguista para preencher aquelas horas de descanso da babá oficial, pense nas lembranças que pretende deixar na infância dos seus filhos. Lembre-se que crianças criadas efetivamente pelos pais se desenvolvem mais rápido e são, sem dúvidas, as mais equilibradas e seguras. Pense se vale mesmo a pena dividir com uma estranha as alegrias das pequenas conquistas e o carinho despertado nas crianças quando sentem quem cuida de verdade delas.

Não terceirize o desafio difícil de criar seus filhos. Não abra mão de ensina-los e orienta-los, mesmo que isso lhe custe algumas horas de cansaço aos finais de semana ou um terceiro expediente depois do trabalho.

Não fique deitado no sofá enquanto seus filhos brincam com a babá. Mexa-se com eles! Sente-se no chão, converse, irrite-se, peça desculpas, ouça desculpas… Dê a comida e veja do que gostam. Crie os laços para o futuro e faça-os acreditar que podem confiar e viver momentos divertidos com você. Compreenda-os e conheça-os. A infância é sua chance para fazer isso!

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