Amor

A maior dor do mundo

Perder um filho é o tipo de pensamento que causa calafrios na alma. Com o luto permanente e uma dor que não passa nunca, o desafio de quem passa por essa experiência traumática é encontrar motivos para seguir vivendo.

Na semana do dia das mães, o Maadu conta a emocionante história do casal Raquel e Isaac. Embora convivam com a saudade permanente do pequeno Davih, eles reconstruíram a vida, a família e passaram a encarar a dor como uma missão para ajudar outras crianças portadoras de alergia alimentar. Um exemplo que faz qualquer pessoa sentir um nó na garganta e repensar a forma como encara as próprias dores.

Conheça a história dessa família, contada pela própria mãe.

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Sou Raquel Tenório, enfermeira, mãe, esposa.Casei-me em 2003 com Isaac, médico radiologista dedicado, um companheiro que admiro e com quem compartilhei o sonho de ter um filho. Pensávamos em como uma criança traria alegria para nossa casa, em como seria emocionante vê-la crescer, estudar, brincar, fazer amiguinhos e… ser feliz!

Em outubro de 2004, o Davih chegou em nossas vidas. Quanta alegria! Ele era intenso, transbordava amor, sorrisos.  Às vezes, quando ele dormia, eu deitava ao seu lado e ficava imaginando como pude viver tanto tempo sem conhecer tamanho amor. Eu já não conseguiria viver sem ele!

Mas o primeiro susto veio ainda na maternidade. O pediatra detectou um sopro cardíaco. Foi um sufoco! Eu só pensava que aquilo não poderia acontecer, não com um filho tão esperado, tão amado! Davih superou esse problema. Com seis meses, os exames mostraram que seu coração estava perfeito.

Sua saúde, entretanto, nos preocupava por outro motivo. Desde que saímos do hospital, Davih apresentou refluxo, constipação intestinal, golfadas persistentes… Não demorou a surgir a primeira otite e os problemas respiratórios decorrentes do refluxo. Da primeira infecção, veio a segunda, a entrada de antibióticos como rotina e as trocas de fórmulas alimentares. Desesperados à procura de um diagnóstico, procuramos um gastroenterologista.

A consulta nos deixou assombrados! O Davih tinha todos os sintomas de uma alergia alimentar e uma imunodeficiência grave que causava aquelas recorrentes infecções. Isso significava que meu filho não tomaria suquinhos, não comeria frutas, sopinhas, comidas gostosas, não iria ao McDonald’s com os amigos… Era meu primeiro luto: o luto de sonhos.

Ali, morria a possibilidade de ter um filho que iria pra escolinha ainda pequeno, que frequentaria festinhas, viagens e teria a vida de uma criança saudável, sem preocupações. O nosso medo era constante e eu precisava aprender a lidar com minha nova realidade: idas frequentes a médicos, exames variados, leite especial, consultas em São Paulo a procura dos melhores especialistas…Para alimentar Davih gastávamos R$ 659,00 em uma lata de fórmula especial, suficiente para apenas dois dias. Conseguimos que o governo fornecesse quatro latas por mês e o restante nós pagávamos do próprio bolso. Além da necessidade de trabalhar muito para pagar essa conta, tínhamos de conviver com as críticas ao nosso novo modo de vida cheio de restrições.

As introduções alimentares eram frustrantes. Cada teste era seguido por vômitos, diarreia, lesões na pele, infecção e febre recorrente. Apesar de tantos sintomas, a imunologista que o acompanhava disse que os últimos exames estavam melhores, que ele caminhava para a cura. Mas naquele mesmo dia fomos mais uma vez para a emergência por conta da febre que não passava…

Era abril de 2006 e nós havíamos iniciado uma nova tentativa de introduções alimentares inspirados na melhora dos exames. Tentamos arroz, chuchu, suquinho e tudo que os médicos achavam que uma criança podia comer sem danos. Mas a reação dele foi muito ruim! Em uma viagem de carro de volta para casa, no Maranhão, tivemos de parar em Teresina por conta de uma febre persistente. E foi lá que travamos nossa última batalha pela vida do nosso filho…

Em 21 de abril, Davih foi levado ao centro cirúrgico para colocar um cateter que iria possibilitar a administração dos medicamentos. Algo me dizia que as coisas não estavam bem. Eu tentava pensar de forma positiva, repetia para mim mesma que ele estava melhorando. Mas era sempre tomada por uma tristeza imensa, uma vontade de chorar quase incontrolável… Naquela noite, deitada junto a ele na caminha de hospital, ouvi: – Vih ama mamãe! Ele estava com 1 ano e 5 meses e eu só pensava em como gostaria de engolir meu filho, colocá-lo de volta na minha barriga para protegê-lo, para que ele crescesse a salvo!

Nosso plano era que Isaac voltaria para casa para retomar o trabalho e eu seguiria em Teresina, no hospital, com meu filho e minha mãe. No final de semana ele voltaria para nos buscar. Mas o destino reservado para nós era diferente… No dia seguinte, sai do hospital para almoçar e respirar um pouco. Pensei em comprar brinquedos para comemorar a volta para casa. Deixei Davih com minha mãe. Ele havia comido arroz, tomado banho e assistia ao seu dvd favorito. Parecia que as coisas começavam a melhorar. Mas, logo que sai do hospital, senti um aperto no peito, uma vontade de voltar para o quarto e agarrá-lo bem forte. Na mesma hora, minha mãe telefonou avisando que Davih estava sendo levado para a UTI.

Cheguei a tempo de vê-lo entrando na sala. Sentei no chão, chorei, rezei de mãos dadas com Isaac. Ali, naquele lugar frio e distante de casa, recebemos a pior notícia das nossas vidas: Davih não voltaria para nós! Confesso que cheguei a sentir ódio… Eu pensava que aquilo não poderia ser verdade, pois o amávamos demais e eu não saberia viver sem ele. Quanta dor!

Foram muitos dias de angústia, de busca por respostas para o que havia acontecido… Quando voltamos para casa, encontramos um lar vazio, cheio de brinquedos, repleto de um silêncio angustiante. Pensamos em nos mudar. Mas antes, para fugir da realidade, decidimos fazer uma viagem. Passados 28 dias da morte do nosso filho, estávamos a caminho de algum lugar quando sofremos um grave acidente de carro. Ficamos alguns dias no hospital, em recuperação. E eu só pensava: – o que Deus quer de nós, afinal?

Enquanto eu sofria e questionava tudo, nascia, longe de mim, um bebê cujo destino era ser nosso filho. Em meio a uma tristeza imensa, a angústia, e a uma dor inexplicável e permanente, Pedro chegou a nossas vidas…Meu tempo passou a ser novamente preenchido por sorrisos inocentes, choros, mamadeiras, noites em claro, e a construção de um amor incondicional. Tudo ia bem até que ele apresentou diarreia e crises respiratórias. De novo, o diagnóstico de alergia alimentar.  O que explicaria isso? Seria o nosso destino?

Novamente estávamos comprando leite especial e vivendo uma rotina de cuidados e restrições. Foi nesse período que descobrimos que eu estava grávida novamente! Bruno nasceu quando Pedro tinha 1 ano e 3 meses e descobrimos que meu filho mais novo também tinha uma séria alergia alimentar.     Eu, que carregava o luto de perder um filho para a alergia, tinha agora a missão de cuidar de dois bebês com problemas semelhantes. Era um desafio imenso, mas decidi aceitá-lo e enfrentar as batalhas, mais uma vez.

Mudei com as crianças para o Rio de Janeiro, numa tentativa de salvar nossos filhos. Achamos que seria mais seguro para eles se estivessem mais perto dos médicos, do hospital, com uma estrutura melhor para casos de emergência. Isaac permaneceu no Maranhão trabalhando e decidiu especializar-se no assunto. Estudava sem parar, devorava livros, artigos, e conversava com os colegas alergistas. A meta agora era conhecer a alergia a fundo para, um dia, nos trazer de volta para casa e cuidar de nós. Tornar-se o médico dos próprios filhos era sua nova missão!

Depois de quatro anos, nós três voltamos para casa. Isaac, especialista em alergia alimentar, hoje atende crianças com o problema e ajuda famílias a evitarem a morte dos seus filhos por conta da doença. Passamos a acreditar que Davih foi o anjo enviado para nos preparar para os desafios que viriam. Percebi que, embora minha dor fosse enorme, poucas mulheres teriam o privilégio de receber um anjo em casa e de ter ao lado um companheiro capaz de mudar de vida por amor à família. No fundo, Deus não havia me abandonado como cheguei a pensar.

Hoje nossa rotina tem sido viver um dia após o outro. Damos passos curtos e constantes. Pedro e Bruno, agora com 8 e 9 anos, nos trouxeram a oportunidade de sermos pais novamente. E nós damos a eles o amor incondicional de quem é capaz de qualquer coisa para mantê-los vivos e felizes.

Quanto ao Davih? Sinto que ele está ao meu lado em todos os momentos. Estou certa de que ele é o meu anjo e eu agradeço a Deus por tamanho amor.

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Raquel, Isac, Pedro e Bruno: família reconstruída

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Uma resposta “A maior dor do mundo

  1. Wilma Araujo disse:

    Q história linda e triste, meu deus! E esse médico? Como consegue transformar dor em missão de vida? Tem coisas que não se explicam mesmo…

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